Pelos limites do Sahara
- Jan 3, 2024
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O deserto do Saara é a região mais quente e desertificada do planeta, para lá de 9 milhões de quilómetros quadrados de grãos de areia. Ocupa a maior parte da África do norte e seus confins são difusos, abancando deste a oeste toda a costa africana.
O Saara é um deserto de extremos geográficos: uma imensidão de planaltos de pedra que subitamente dão lugar a montanhas de areia. O clima é implacável, com radiação solar intensa de dia e quedas bruscas de temperatura à noite, que te fazem estalar.
Pois, é mesmo aqui para onde vamos!

M’hamid é o fim da estrada. A última fronteira antes do nada, mas onde tudo pode acontecer.
M’hamid não é uma aldeia que se visita; é uma aldeia que se sacode da roupa durante semanas após o regresso. As casas de adobe fundem-se com a paisagem de tal forma que, se fechares os olhos com força, podes confundir uma casa com uma duna achatada. Aqui, o lifestyle nómada não é um conceito trendy é uma resistência real. O vento, o Chergui, insiste em colocar uma fina camada de pó sobre tudo o que possuis em menos de um nada. Os M’hamidi possuem um superpoder: a capacidade de manter a dignidade absoluta enquanto usam cinco metros de tecido enrolados na cabeça — o cheche.


É um caldeirão cultural onde a areia mistura linhagens antigas, mas o povo predominante são os Aït Atta, uma das mais poderosas tribos berberes Amazigh de Marrocos, conhecidos historicamente como guerreiros e nómadas resistentes do Anti-Atlas e do Vale do Draa. (Se quiseres escarafunchar mais o tema, podes ir onde eu fui, na Encyclopedia Britannica.
À noite, o silêncio é interrompido apenas pelo som do vento e, se tiveres atento, pelo rugido distante de um dromedário. É o momento de dar um último check na mochila e decidir o que é essencial. Na Chez Madani, a iluminação é suave. Ao longe, ouvimos música nómada com tambores e cantos ancestrais e, à volta de uma fogueira, sentimos o chamamento do deserto que vamos abraçar amanhã. Dormimos num quarto de adobe, com paredes grossas, que nos protege das amplitudes térmicas. Pode ir dos zero graus aos cinquenta.
Acordamos com os primeiros raios de luz e o cheiro a pão quente. O André tem fome para dar cabo de meio camelo, mas ficamo-nos pelas iguarias do Madani. Uma delícia!
Há anos que faço viagens em autonomia, mas é a primeira vez que encaro o deserto. Para além do equipamento do costume, o importante está nos mantimentos: comida qd, tudo bem. Mas a água é vital. Litros em barda nas costas, é o que nos espera. Estamos prontos! Insha'Allah

M’hamid – Ras Nkhal – Sidi Naji A aventura começa ao deixar o palmeiral de M’hamid em direção ao sul. O terreno inicial é uma mistura de planalto rochoso e pequenos regatos secos. Passamos por um infinito planalto pontilhado por pequenas rochas que nos fazem moer os pés., onde o palmeiral se funde com as primeiras dunas baixas. Destaque: Almoço à sombra de tamariscos gigantes antes de seguir para as dunas de Sidi Naji, um local sagrado para os nómadas locais. Daí para a frente só nos resta aquele mar de amarelos até ao infinito.



O silêncio aqui é tão denso que podemos ouvir os nossos próprios pensamentos — o que, sejamos honestos, pode ser a parte mais desafiante da viagem.

Sidi Naji – Erg Lhabidia
Este é o dia de maior imersão nas dunas de areia virgem. Seguimos em direção a oeste, atravessando áreas de dunas mais altas e espaços abertos onde o silêncio é absoluto. O ritmo é ditado pelo sol, com uma paragem prolongada nas horas de maior calor. Ao final da tarde, alcanças as dunas de Lhabidia (também conhecidas como Erg Lhabidia ou parte do complexo de dunas que antecede Erg Chigaga). Destaque: Subir à crista da duna mais alta para ver o pôr do sol, onde a areia muda de dourado para tons rosados e alaranjados.

Erg Lhabidia – M’hamid
O último dia foca-se na travessia de regresso ou na continuação para pontos de extração. O Caminho: O trilho de volta atravessa diferentes formações geológicas, podendo passar por áreas de solo argiloso seco que outrora foram leitos de rios. Conclusão: Chegada a M’hamid por volta da hora do almoço, marcando o fim da expedição.
A Ética do Pas de Problème Respeitar M’hamid é entender que o relógio não manda. Se marcas uma saída para as 08:00, sair para lá das 10 e continuar "a horas". O respeito conquista-se com um aperto de mão firme, olhando nos olhos e aceitando o terceiro copo de chá, mesmo que a bexiga esteja a implorar por misericórdia e os níveis de glicémia estejam upaupa . No fundo, são os guardiões de uma porta que a maioria de nós esqueceu como abrir: a da simplicidade absoluta.

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Assim começou 2024
Não há muitas coisas na vida tão boas como dormir agrafado ao meu puto numa noite fria no deserto. Aqueceu-me o corpo e a alma, enquanto lá fora, respira uma paz difícil de explicar e um infinito que nos esmaga.
Obrigado, André. Meu berber preferido💛
















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