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da Gardunha ao Açor

É uma ciclo-aventura de 4 dias pelos trilhos acidentados das terras altas da Beira Baixa, à descoberta dos recantos menos óbvios do Xisto. Uma jornada a pedalar sem pressa por caminhos de alcatrão velho e terra batida, mergulhado na tranquilidade dos vales aos desafiantes cumes da Serra da Gardunha e Açor.


dia um

DE COMBOIO AO MONTE DOS CARVALHOS

Castelo Novo tem um apeadeiro. Velho, quase esquecido, duas a três vezes por dia pára um comboio para largar alguém, quase sempre para levar ninguém. É aí que espero os companheiros de jornada para o início de uma ciclo-aventura que se pretende Carbono ZERO. A ideia pretende incentivar os participantes a deixar o charuto a diesel em casa e viajar a folhear um bom livro ou saborear o Tejo pela janela, enquanto a CP faz o resto.

A chegada ao apeadeiro de Castelo Novo dá-nos uma chapada de tranquilidade, desacelera-nos da bisga que as nossas vidas urbanas estão habituadas. Ao som do melro-das-rochas (Monticola saxatilis, diz logo o Pedro, nosso bravo papa-cumes, detentor de um lindo Guia das Aves), os energéticos chapim-de-poupa (Lophophanes cristatus, solta o Pedro com um bom beat — topa-me este tipo @spea_birdlife), dois cães mais ou fundo (Canis lupus) – agora já sou eu a avacalhar – e seis pares de pneu cardado das bicicletas a rolar na terra batida até ao pequeno paraíso que nos acolhe na primeira noite. Golden hour, cabelos ao vento e três enganos no caminho. Começas bem, Querido Líder...


Monte dos Carvalhos é uma comunidade local que desde 2006 é um palco de partilha da inúmeras noções de lidar com os recursos, conhecimento e ralação permanente com a natureza. Uma plataforma de desenvolvimento das boas práticas de viver em comunidade e da terra, dedicada aos princípios da permacultura. Daí até ao abraço da Emma é um pequeno nada, pois é ela uma das bonitas caras do projecto.

Agora, TEMOS FOOOOOME!!

O jantar é uma moche de sabores, texturas e cor, bem regado com Alpedrinha tinto de produção local. Ao serão a conversa foi acompanhada com os sons da noite, por baixo das estrelas e uma viagem introdutória às propriedades alienígenas da gardunha: estrelas impecavelmente alinhadas em filinha pirilau – starlink satellite do cromo do Elon Musk, soubemos mais tarde.

Para descansar os corpos ansiosos do dia que nos espera amanhã, caminhamos pelas ervas de frontal na tola, até à tipi tenda-hippie-supa-style-cozy-à-brava.

Mais tarde, já mais para lá do que para cá, recebi as boas noites de uma Tyto alba, que iria para casa depois de marchar um pequeno Mastomys.

Certo, Pedro?


dia um

DAS CRISTAS DA GARDUNHA AO VALE DO ZÊZERE

Ainda com os cheiros do quintal da Emma e dos 20 abraços, thank you, good luck e obrigado por tudo na despedida, rolamos para a Gardunha. É um dia puxadinho. Dizia um amigo de uma boa amiga que começar pelos mais exigentes é uma técnica usada por “certos cicloturistas” e, segundo os próprios, voilá, resulta!

É carregadinhos de certezas que a ciclo-ciência nos dá que atacamos Castelo Novo, a aldeia do xisto mais encaixado na Serra da Gardunha que o mestre Barata Moura pintou nas suas telas. Nascido e criado nestas terras, deve saber bem o que são picadinhas suaves.

A Serra da Gardunha, apesar da pequena área geográfica, tem uma beleza muito particular. Lá em cima nos cumes o granito vinda, mas em cotas mais baixas o xisto faz-se valer numa luta geológica por protagonismo.


A Serra da Gardunha, apesar da pequena área geográfica, tem uma beleza muito particular. Lá em cima nos cumes o granito vinda, mas em cotas mais baixas o xisto faz-se valer numa luta geológica por protagonismo.

Hoje, o prémio montanha está lá em cima e a luta vai sair-nos do pêlo. Apesar do sol, a brisa da Serra mantém-se fresca, mas a gravilha tende a empinar e se não puxas pedal vais ao tapete ou muda para hike invés de bike. Sábia opção. Depois de largar um pulmãozinho e dois atentados ao cardiovascular, alcançamos o topo. O cansaço é grande, mas o cenário compensa tudo. Com a primavera, explode cor na vegetação que rebenta à volta do granito. A Este, vemos Monsanto, a Sul a Albufeira da Marateca, a Oeste a imponente Serra da Estrela que se segue à bandalheira humana da Cova da Beira.


Bora descer, que há cerejas ainda na árvore para dar alento ao estômago. Daí, voamos em alcatrão até à água fresca da Ribeira de Ximassas, a pérola fluvial de Lavacolhos. Pois, Lavacolhos! É o que dá darem nomes depois de almoço... LA-VA-CO-LHOSSSSS

Banho, farnel e descanso foi a combinação de sucesso que carregou baterias para a tirada da tarde. Os trilhos florestais vão seguindo ondulantes até à picada final. P*ta de Subida!! – desabafa uma delas. F*da-se, outra vez??? – desespera outro. Quero apredejar o Diogo – desejam todos. Assim foi! Movidos pela energia do impropério, esse lindo e cantado latim do Bocage, que vencemos mais uma etapa quase a pique. É só pinheiro à volta, eucalipto como o raio, mas com a certeza de que daqui já não me lixam.

É SEMPRE A DESCER!!



Em dois minutos alcançamos novamente o asfalto e segue-se um ziguezague para cortar o vento às fatias até à Barroca, uma das aldeia do xisto debruçada ao Zêzere.

O sol já se está a pôr, o troço faz parte da GRZ (Grande Rota do Zêzere), que nos leva às imponentes Escombreiras do Cabeço do Pião, gigantes dunas que nos desafiam a escala, outrora uma parte integrante das Minas da Panasqueira. Uma aterragem em Marte, portanto.

É neste cenário meio surreal e abandonado, parado nos tempos de 90’, que somos recebidos com a alegria da Bina e nos conduz ao conforto do lar sweet lar desta noite. O jantar está pronto!


dia dois

SANTÍSSIMO ASFALTO DA TERRA MINEIRA DA BEIRA BAIXA

Recomeça... se puderes, sem angústia e sem pressa e os passos que deres, nesse caminho duro do futuro, dá-os em liberdade, enquanto não alcances não descanses, de nenhum fruto queiras só metade.

Miguel Torga TORGA, M., Diário XIII.


Das coisas que me dá mais prazer nas viagens é alinhar o beat mais próximo com a natureza. O dia arranca com o fresco da manhã no Pião. Uns mais frescos, outros ainda meio molengas, mas tudo vivo! O dia anterior foi duro, mas a maltinha está com moral e o corpo moído só precisa de aquecer para começar a rolar sem crises.

Queixumes das nalgas: ZERO! Enchi o peito com um super-respect por esta gente!

Estarão a dar tanga?

Hoje é dia de Santíssimo Asfalto pelas Terras Mineiras da Beira Baixa. Amen!



São Francisco de Assis, Barroca Grande com o mítico Gasómetro, Cambões, a esquecida Panasqueira e a rodada de cervejas geladas de S. Jorge da Beira que o Teixeira vai buscar à arca do tasco, enquanto grita com entusiasmo: – Tem que ir à Santa do Btt!! – diz o gajo 30 vezes. O Hermínio ainda não chegou, por isso não há histórias da França, dos TGV, de voltar para a terra à procura do grande sonho de ter uma mulher. E teve! – Saiu-me uma surda – diz ele, com carinho.

Em tom de celebração brindamos a segunda rodada e ganhamos coragem para a picada/lombinha/upaupa, já sabem.

Abençoados pela Santa do Btt.

Sim, cacete, SANTA DO BTT!!!!


Se a descer todos os santos ajudam, era bem fixe que esta ajudasse a subir. Mas não. Duas mãos bem cheias de curvas e contra-curvas no meio de um pinhal que nos leva ao cimo do monte. Aqui cruzamos a GR22 que nos leva a Unhais-o-Velho, terra natal do rei das KTM que, não fosse a nossa louvável resistência, ainda hoje lá estávamos a virar copos. Seguimos na gáspea até Malhada do Rei, onde o resto da malta já esperava alapados a um alpendre com roupa de inverno. Infelizmente a Casa do Povo estava fechada, o que nos privou do gasóleo🍺 para o prémio montanha do dia: as Eólicas da Pampilhosa. O dia vai longo, pernas cansadas, rabos amassados, mas o cenário é tão incrível que nos faz esquecer o esforço para ser só aquela coisa simples da LIBERDADE. Ahhhh vento bom no focinho!! Ahhh.... está vento DEMAIS no focinho, as pernas já não querem fazer muito e isto quase que não mexe.

Os últimos esforços tendem a fazer paralelos com momentos épicos da Volta. — Carrega, Joaquim Agostinho!!

Temos cume!


O cenário duplicou em amplitude. Para um lado o Açor, para o outro a Gardunha de ontem, a Estrela de sempre. Sempre, sempre bonito.

Daqui segue uma rampa serpenteada que nos leva o cabelo e umas lágrimas ao vento. Sempre a descer até ao pote-preto-fosco da Chanfana do Pascoal.

Cala-te e come, anda!


dia três

DOS CUMES DO AÇOR AO VALE DA MARGARAÇA

Já alguma vez dormiste uma noite na cadeia? Se não, tens que ir a Fajão! Situada entre Arganil e Pampilhosa da Serra, ganhou fama, em tempos idos, um juiz, figura central de um território de fábulas e lendas, sob a forma de Contos de Fajão por Monsenhor Nunes Pereira.

Hoje vamos escorregar do alto das penedas de quartzito até ao bonito vale do rio Ceira. São mais de 4 km a serpentear as fragas xistosas até às margens do rio. A manhã ainda estava fresca e o vento na cara tonifica a pele e promove penteados criativos. A primavera ainda está a rebentar de verde, depois dos amarelos da giestas e, com uma sorte dos diabos, encontramos um ou dois Azereiros. Prunus lusitanica subsp lusitanica, para os amigos.

Com um temperamento de quem sabe qual o seu destino, o Ceira despede-se de nós e segue para Este até encontrar o Mondego, para quem vai para Coimbra.

Continuamos ao ritmo que as pernas nos deixam até Relvas, sem grandes oscilações, sem esforço por aí além, sem deixar perder os sons que os pássaros nos deixam. Pedro, atento, topa um Monticola solitarius. Ou era um Cinclus cinclus?

Enquanto a Diana procura um amigo da terra, Ó Sr. Joséééééééé!! Nada. Ó Sr. Joséééééééé!!

Aaauuuuuuuuuuuuuuuu, começo eu do outro lado, para baralhar, armado em parvo. Nada.

Dali até Teixeira foi um volta de pedal e sem dar conta, chegamos a Caratão. Uma aldeia perdida no tempo, encaixada num dos vales profundos que a Serra do Açor teima em esconder. Por entre as paredes de xisto, salta sem avisar um bigode farto a preencher a cara do Sr. Zé. Não é que o tenha dito, mas para nós passou a ser o Guardião de Caratão. Homem alto, espadaúdo, pouco dado a sorrisos, mas com um tom acolhedor e hospitaleiro. - Como é Sr. Zé, serve-nos um café?

É! O homem nasceu ali. Aponta com o dedo à casa-ruína que se destaca pelo telhado cabriolet. Viveu em Arganil no início da vida adulta, mas atirou-se para fora de pé muito cedo: Irão, Egipto, França e houvesse treta para mais, daria uma volta ao globo. Ficámo-nos pelo café bom, a vida pacata de Caratão e a promessa de, muito em breve, voltar a gritar pelo Zé, está na hora do café!

Então, já não há mais descidas?

Há pois! Mas não é para já.

A subida faz uns zês em estrada de terra batida, ladeada de urze, esteva e pitadas de alfazema. Se as cores dessem energia nem dávamos pela estafa. Estamos a entrar em território mítico dos apreciadores de rally, barulheira e muita poeira. A história do Rally de Portugal passa por aqui e pelas suas emblemáticas curvas e contra curvas a galgar serra como se tivessem atrasados para uma refeição com arroz malandro. Enquanto o Carlos Sainz corta o vento às fatias, nós avançamos em câmara-lenta com aquela falência nos músculos a dar sinal de que já se parava para uma bucha. O Posto de Vigia do Monte Redondo está a 972m é o ponto mais alto do dia, o nosso spot para almoço e oferece uma panorâmica incrível para onde quer que te vires. Açor, check! Estrela, toma lá! Gardunha, já nem a vês bem! Lousã, quase que lhe tocas com a ponta dos dedos, mas afinal não. Em menos de 20 segundos varres com os olhos todas as rugas altas da Beira Baixa.

Agora com o estômago forrado a comida boa, damos mais força ao pedal pela encosta que nos leva à Picota e, sem cerimónias, faz uma guinada a descer à bruta até Enxudro, Sardal, até levar de frente com um portento acidente geológico, a Fraga da Pena. É um lugar especial. Em plena Paisagem Protegida da Serra de Açor, a Fraga promove uma sequência de cascatas abraçadas por Carvalhos-Alvarinho, Castanheiros, Medronho e Troviscos que, nesta altura do ano, rebentam com um verde explosão.


Com a natureza a sair-nos pelos olhos, escorregamos até ao poiso que nos vai dar cama.

Pardieiros é uma terra de colhereiros. Melhor, Pardieiros foi uma terra de colhereiros, pois agora só há um. O mestre João, colhereiro por vocação, faz todas à mão com uma imensa paixão. Impressionante a técnica. Em menos de 10 minutos despacha com destreza, uma escultura em pau, enquanto tagarela com um orgulho simpático as aventuras do seu ofício. Para não variar, levo cinco colheres de pau pau pau.

O final de dia deu-nos os últimos raios de luz para brindar ao alto, por mais um dia longo e bonito. Aguentem corpos doridos, seja Sagres ou Super Bock, vai um BEM HAJA! à cerveja fresca!


dia quatro

DAS PORTAS DO AÇOR A SANTA COMBA

É bonito, o Alva! Manso, claro, calado, sem a tragédia do Douro nem a grandeza do Tejo, é bem o rio da Beira, que define a Beira (…) “ - Miguel Torga

Acordamos cedo no coração da Serra do Açor, ao som de uma cascata imponente, encaixada num vale de verde profundo. Natureza em bruto ou Fraga da Pena, para quem lá vive ou vai ou google. Água fresca em barda a cair dos céus que o verde farto das árvores não deixa ver.

Hoje o dia vai ser tranquilo, sem grandes oscilações no terreno. São boas notícias para quem já tem mais de 120 km bem medidos nas nádegas e 3550 m de desnível nas pernas.

Depois da aldeia branca da Benfeita, seguimos as curvas da ribeira da Mata pelo vale forrado a choupos até desaguar no Alva, na vila de Côja. Há tempo para banhos, mergulhos e uns snacks mata-bicho, enquanto as pernas descansam. A água fresca do Alva vem das terras altas da Estrela e dão choque em contacto com o corpo. Acorda corpo, que o teu mal agora é fome.

A última picada da manhã leva-nos ao Vale da Fonte. A Isabel espera por nós com o afecto desprendido e bem disposto de uma boa amiga que também é tia. A minha tia de sempre. Bola de bacalhau, bucho, cogumelos recheados, ovos das galinhas da casa e cerveja gelada para empurrar. Estraga-nos com mimos, esta mulher.

Sentados na varanda do vale da fonte, à nossa frente estão todas as lombas, pombinhas, picadas e picadinhas dos últimos quatro dias. Um flashback de 3 segundos que não encheu de histórias, desafios, conquistas e muitas gargalhadas. Está a ser difícil lidar com esta denguice boa de um almoço guloso.



Os últimos kms rolaram com uma preguiça impecável partilhados por florestas de pinheiro, eucaliptos, vinhas e olivais, que intercalam com aldeias mais ou menos abandonadas até chegar ao Mondego. Pouco à frente é o rio Dão que nos conta o fim desta ciclo-aventura que, depois de 150km, nos diz que bom bom era uma cervejinha... A estação, meia deserta, meia abandonada, não sucumbe à luxúria da fresquinha. Bebam água, malandros!!

Rimos por tudo, rimos por nada, trocamos abraços e há hora aproximada, chega o comboio que nos leva até casa.


 

🌱Carbono ZERO

Esta viagem pretende sensibilizar a exploração do nosso país profundo de forma sustentável. É um convite a quem procure viajar sem criar impacto e um desafio a quem não ache possível viajar em Portugal sem pegar no carro.

Alpedrinha tem um apeadeiro. É aí que vos espero para o início de uma bela ciclo-aventura de 150km que terá fim numa estação de comboios que, a hora aproximada, vos levará para casa.

 

Da Gardunha ao Açor é uma ciclo-aventura pelos trilhos acidentados das terras altas da Beira Baixa, à descoberta dos segredos menos óbvios das terras do Xisto. São 4 dias a pedalar em caminhos de cascalho e terra batida, mergulhado na tranquilidade dos vales aos desafiantes cumes da Serra da Gardunha e Serra do Açor.

Mais informações, aqui: Da Gardunha ao Açor