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Ala Planalto

  • Dec 27, 2025
  • 7 min read

Updated: 4 hours ago

↟ A ROLAR NAS CALMAS PELOS CONFINS TRANSMONTANOS ↟


“ O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa

de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam:

é um excesso de natureza. I...!

Um poema geológico. A Beleza absoluta.

                             MIGUEL TORGA, in “Diário XII”



dia um

DO MUNDO TODO, ATÉ AO POCINHO & para lá dos montes

do Mundo ~ Pocinho ~ Carviçais

De onde quer que estejas até ao Pocinho é por si só uma viagem dentro da viagem. A linha de comboio do Douro internacional transporta-nos as bicicletas em primeira classe e a paisagem classificada como Património Mundial da UNESCO. Mas bem antes das mais altas instâncias virem pôr os olhos nisto, já o nosso Torga mostrava por palavras o que o mundo ainda não tinha visto. O comboio serpenteia ao longo do rio, com as vinhas em socalcos incrivelmente íngremes, com pequenas aldeias encravadas nas encostas que se erguem de ambos os lados. Em breve chegamos ao Pocinho, a última estação. A partir daqui, estamos entregues à força das pernas e à vontade da alma. Montamos as bicicletas e Ala que é caminho!



Rolamos pela Ecopista do Sabor, que viu o último comboio em 1988. Agora são as bikes que fazem caminho até a Torre de Moncorvo para um pitstop de qualidade com propriedades ecoturísticas. Em dias de calor, damos um mergulho para refrescar, na Albufeira de Vale de Ferreiros. Em breve chegamos a Carviçais, a aldeia onde passamos a noite.



dia dois

PELA ROTA DOS CASTELOS

Carviçais ~ Mogadouro ~ Algoso

Nesta jornada mergulhamos no coração da Terra Fria Transmontana, onde estes caminhos de terra, aldeias e a gente que lá vive, contam histórias de cavaleiros e fronteiras antigas. Quem diz que o Planalto é plano só anda de carro. Raramente a pé e tão pouco pegou numa bicicleta. Os mais destemidos atiram-se ao lago pela manhã, enquanto outros tomam o pequeno almoço. É pela fresca que seguimos o trilho ondulante apontado a norte. Num misto de montanha e paisagens rurais, seguimos pela terra batida por este território de xisto até ao Castelo de Mogadouro, umas das fortalezas mais importantes da raia transmontana. Em segundos, estamos sentados na Tasquinha a saborear os petiscos mais deliciosos da região. Depois do deleite, seguimos caminho com o vento na cara, passando pelos imensas florestas de sobreiros, pontuados por bonitos lameiros onde o pastoreio ainda é uma realidade quotidiana.



Em breve vislumbramos o imponente Castelo de Algoso, construído sobre um alto maciço rochoso. É essa a nossa direcção, que também indica cerveja fresca, tremoços e conversa animada com os locais. Os últimos kms leva-nos a um dos lugares mágicos desta viagem. Uma bonita curriça, onde noutros tempos abrigava animais, vai servir-nos de tecto para um descanso merecido.



dia três

ALA BURRICO!

Algoso ~ Atenor ~ Cicouro

Com sorte, temos um casal de águias de Boneli a dar-nos os bons dias. Esta curriça está num lugar especial. Se tomarmos atenção é um fartote de sons bonitos que entram nos nossos ouvidos: águias, milhafres, rolas bravas, bufo-real, abelharuco, poupa, torcicolo, e uns tantos mais.



Ala Planalto 🚲🌱 É um projecto de turismo regenerativo de interpretação dos meios naturais, culturais e históricos do Planalto Mirandês e Douro Internacional. Em cooperação com a Associação Palombar e a AEPGA, com o objectivo de promover a utilização de meios sem impacto de carbono, como a bicicleta, a quem procura aventura e abraçar a arte de viajar devagar e explorar os recantos esquecidos do país com a vontade do corpo, sem criar impacto. O projeto conta com as ilustrações feitas in situ pelo artista viajante Luís Simões, que registrou de forma única a beleza e a diversidade natural desse lugar. E a colaboração técnica na construção de cada etapa, do líder de viagens Diogo Tavares | Vadiagem Outdoors.

A viagem vai ser longa, mas com ondulações suaves, na companhia do Castelo de Algoso, que nos continua a acompanhar até desaparecer de vista. Em Atenor, desmontamos da bicicleta, a aventura faz uma pausa obrigatória na sede da AEPGA, o santuário onde o icónico Burro de Miranda é o protagonista. Daqui para a frente enfrentamos o isolamento e a beleza rústica do Planalto Mirandês até à raia em Cicouro. O trilho segue por estradões de terra batida entre matas, campos de cultivo tradicionais e pequenas aldeias onde o tempo parece ter parado. Estamos agora num dos pontos mais orientais de Portugal.



dia quatro

ENTRE A BRISA DAS ARRIBAS E O FOLE DA GAITA

Cicouro ~ Miranda ~ Urrós

Esta é o dia onde a raia se torna o teu trilho e o horizonte se rasga nos desfiladeiros do Douro. Prepara-te para o troço mais cénico e selvagem de toda a jornada. Poucos kms passados e fazemos uma pequena paragem na oficina de Célio Pires que não é apenas um artesão; é um mergulho visceral na alma e no som da Terra de Miranda. Os caminhos de terra batida, que outrora eram usados por contrabandistas, levam-te por entre muros de pedra seca, enquanto sentes o cheiro a esteva e tomilho, até a Castro de São João das Arribas onde te confrostas com a pré-história e a vertigem que te leva ao Douro. Por baixo da sombra de sobreiros centenários até Miranda, a surgir no horizonte. É a paragem estratégica para recarregar energias. Cruza o centro histórico e segue para o Miradouro da Sé, onde podes avistar a imponente barragem e o rio que divide dois mundos.



Com Miranda pelas costas, rolamos por caminhos técnicos que serpenteiam as margens do Parque Natural do Douro Internacional. Aqui, o trilho torna-se mais exigente. Vamos pedalar na crista do desfiladeiro, com o Rio Douro a correr centenas de metros abaixo. A chegada a Urrós faz-se por entre campos de oliveiras e amendoeiras. Antes de entrares na aldeia, desvia-te até ao Miradouro da Fraga do Puio. É uma plataforma de vidro suspensa sobre o abismo onde verás o Douro fazer uma curva perfeita em "U". É o local sagrado para acabar o dia em grande.



dia cinco

DO ABISMO DO DOURO ÀS TERRAS DE FORNOS

Urrós ~ Vilarinho dos Galegos ~ Fornos

Partimos de Urrós com o Douro pelas costas, mas a paisagem não perde a força. O trilho segue por estradões que cortam campos de cereais e pastagens, onde a bicicleta levanta a poeira avermelhada que caracteriza a região. Em Vilarinho dos Galegos, a história de resistência está gravada nas pedras. Outrora terra de cristãos-novos e artesãos de teares, a aldeia mantém um misticismo único. É o local ideal para esticar as pernas e observar a arquitetura tradicional em xisto e granito que resiste ao tempo. Se tiveres fôlego, o desvio até ao Castro de Vilarinho revela mais uma varanda sobre o Douro, onde o rio corre apertado e selvagem.



O caminho entre Vilarinho e Fornos é um constante sobe-e-desce técnico. Atravessamos linhas de água sazonais e trilhos ladeados por muros de pedra que parecem labirintos. A vegetação torna-se mais densa, com o azinho a dar-te as boas-vindas, com aquela sensação boa de fim de mundo, onde o único som é o das tuas rodas a morder a terra.



dia seis

COMO QUEM VAI PARA A CALÇADA DO DIABO

Fornos ~ Alpajares ~ Escalhão

O caminho de terra desce em direção ao vale, serpenteia entre olivais centenários que anunciam a proximidade de Freixo. Entramos na vila sob o olhar da Torre do Galo. Subimos pelas ruas à descoberta dos portais manuelinos que parecem bordados em pedra. Deparamos com a famosa Freixo, a árvore que, segundo a lenda, deu o nome à vila quando um cavaleiro pendurou a sua espada.



Seguimos por um troço de pedra romana com o peso da história nas rodas. A descida até à Ribeira do Mosteiro é uma vertigem de adrenalina pura onde a bicicleta e o cavaleiro se tornam um só contra o abismo. A mítica Calçada de Alpajares (também conhecida como Calçada do Diabo). Este é um dos troços mais cénicos de Portugal. É uma descida em ziguezague sobre pedras milenares encravadas na encosta escarpada. Se não fores um mestre do downhill, desmonta e leva a bicicleta à mão; o declive é vertiginoso e o cenário, com o Ribeira do Mosteiro ao fundo, vale a pena fazê-lo devagar.

Após o inferno de Alpajares, o terreno aplana até a Barca d'Alva. Cruzamos o Douro, deixando o distrito de Bragança para entrar na Guarda. A última subida é feita por entre vinhedos de perder de vista. O cheiro a uva e terra quente acompanha-nos até à entrada triunfal em Escalhão.



dia sete

DAS VINHAS AOS TEMPLOS DE GRANITO

Escalhão ~ Almofala ~ Vilar de Amargo

O trilho sobe de forma constante por caminhos de terra que cortam vinhas de altitude. Aqui, o ar torna-se mais leve e a bicicleta rola sobre um terreno de transição, onde o granito começa a dominar a paisagem. A meio caminho, surge Almofala, um lugar onde a história se sobrepõe em camadas. Paramos no Templo Romano de Almofala (ou Torre de Aguiar). É um esqueleto de pedra solitário no meio do campo, um vestígio romano que mais tarde foi igreja medieval. Os que ainda tiverem pernas, rolam com vontade até ao Miradouro de Almofala, onde vemos o Rio Águeda a serpentear na fronteira com Espanha. O troço final até Vilar de Amargo é para soltar os cabelos e sentir o vento na cara.



Os estradões de terra batida estendem-se entre muros de pedra seca e carrascos. Ao entrar em Vilar de Amargo, seremos (bem) recebidos pela rudeza de uma aldeia beirã, onde o tempo é marcado pelo som dos rebanhos. Esta noite será especial. Na companhia do amigo Marco, vamos descobrir as gravuras rupestres do Grande Vale do Côa numa viagem ao passado onde os grandes herbívoros ali retratados eram uma constante na paisagem.



dia oito

O ÚLTIMO DOS MERGULHOS

Vilar de Amargo ~ Castelo Melhor ~ Pocinho

Saindo de Vilar de Amargo, o terreno é rápido e ondulado. Num ápice vislumbramos o Vale de Afonsinho. Os caminhos de terra batida atravessam campos de amendoeiras que, na primavera, criam um tapete branco e rosa sob as rodas. Pedalar por Almendra é passar entre solares e casas brasonadas de granito. É o local ideal para uma pausa curta junto ao chafariz barroco, recuperando o fôlego para o que vem a seguir.



A descida acentua-se. Castelo Melhor surge como uma sentinela que guarda o acesso ao Vale do Côa. As ruínas do castelo medieval, no topo de um monte cónico, oferecem uma das vistas mais selvagens da região. Estamos em território de gravuras rupestres e de natureza em estado puro. A etapa final do dia é uma descida vertiginosa em direção ao rio. O calor aumenta à medida que perdemos altitude e as vinhas em socalcos começam a dominar o horizonte. A chegada ao Pocinho é o porto de abrigo, onde a linha do comboio encontra as águas calmas do Douro e nos mostra o caminho para a viagem de comboio que nos leva a casa.


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Esta iniciativa está integrada com o Passaporte Natura 2000, proporcionando uma nova forma de conhecer a maior rede de áreas protegidas do mundo – a Rede Natura 2000.

 
 
 

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