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Extremo Ocidente - Açores

As Flores é uma das ilhas mais remotas do remoto arquipélago dos Açores. Juntamente com o Corvo , forma o grupo ocidental das ilhas dos Açores e é o ponto mais ocidental da Europa.



dia um

Ping-Pong Transatlântico

Lisboa > Terceira > Ponta Delgada > Flores (vá-se lá saber a lógica disto...).

Santa Cruz > Alagoa | 4,1 km - caminhada para aquecer as pernas


4 voos e muitas horas de aeroporto depois, chegámos às Flores. A ideia é percorrer uma boa parte da ilha a pé (GR3FLO), com autonomia para dormir em sítios bonitos e deixarmos que a natureza nos esmague cada osso. Hoje não fazemos fogo para aquecer e comer, mas trazemos lixo da praia como um obrigado por tudo o que nos dá.



dia dois

de Alagoa a Ponta Delgada


Ninguém ouviu a alvorada, daí sairmos da toca já com o sol alto. Alagoa > Ponta Delgada é o trilho que nos espera hoje. Pouco nublado ou limpo com a temperatura mágica de uma região semi-tropical. Verde, verde, verde que até faz doer a vista.


dia três

Ponta Delgada a Fajã Grande


Segundo o Meireles do “O Pescador”, só chove lá para as três. Os primeiros kms são de um aborrecido alcatrão, mas rápido fugimos para as falhas de lava muito antiga, coberta deste verde musgo, fetos e hortênsias já comidas pelo sol. Sol que ficou em casa, substituído por um vento espetacular borrifado a chuva da grossa.



O Museu do Machado, na Ponta Ruiva, o Machado himself e o licor de Araçal. Sobe, desce, sobe, sobe e sobe, até perderes a proporção que estas escarpas nos provocam, quando as urzes nos deixam ver mais além. É esmagador! Ponta Delgada já está à distância dos nossos olhos, mas das pernas nem por isso. A chuva não dá tréguas, mas o corpo está a vibrar por estar ali. Num dos trilhos mais bonitos que fiz na vida.


dia quatro

Fajã Grande até Fajãzinha, como quem vai para Lagoas


São 9:30am, dentro da Barraca Q’abana. Um galão numa mão, fatia de bolo caseiro na outra, cara pouco lavada e um sorriso guloso. Bom dia!

Fajã Grande é provavelmente das aldeias mais incríveis das Flores. Não pela aldeia em si – a Fajãzinha dá baile –, mas pelo enquadramento. Está rodeada por uma falésia em que nos escapa a escala com 17 cascatas a jorrar água a 300m de altura. Hoje é dia santo, as mochilas pesadas são substituídas por daypacks com água e comida para o dia. Apetece-nos voar. Para baixar a crina com tanta facilidade, atacamos a Escada do Céu (my ass!! acrescentou a Paula, quando ainda nem ia a meio). São quase 300m de zigzags que põem qualquer glúteo preguiçoso, prontinho para o verão. A vista para o mar é incrível e o trilho íngreme obriga-nos a encher os pulmões de ar puro.



Lagoas Branca, Seca, Comprida e Negra. Passamos por elas em ritmo de alegre pastagem até à estrada de asfalto. Como a malta do trilho não caminha em alcatrão, esticamos o dedo e siga de caixa aberta até à Fajãzinha: a melhor mini com azeitonas é na mercearia do José Baldes.

Os dias já são longos e resolvi fazer um upgrade à GR com a PR2FLO até ao Poço das Patas. Magia!! 10 minutos de tolerância a cada um para fotos parolas, outros 10 para contemplações várias e deixamos-nos estar a olhar para aquilo. É magia, sim!! Na volta, recuperamos o trilho pela Aldeia da Cuada, provavelmente a aldeia de turismo rural mais antiga do país, e escorregamos em velocidade cruzeiro até à Fajã Grande. Nem uma derrocada recente (hardcore!) no meio do trilho nos impediu de mandar a baixo as lendárias francesinhas do Barraca Q’abana do Amaral.

Já está a caixa aberta do Francisco lá fora à nossa espera. Amanhã cedo há uma janela de oportunidade para boiar até ao Corvo. Já de noite, cruzamos a ilha pelo Mato, a zona mais agreste e desabitada da ilha, até à Santa Cruz. Hoje dava um jeitão que a tenda se montasse sozinha.


dia cinco

Ilha do Corvo e todo o Atlântico até lá O Didier, a Paula, o Rui e eu. Tudo tipos com sorte. O Carlos, da ExtremoOcidente envia-nos a mensagem que esperávamos com ansiedade: Vamos ao Corvo!

São nove da matina e enquanto sacudimos ramelas, vestimos coletes antes de abancar no Trekker, um semi-rígido todo cromo, com dois motores de 250 cavalos. A experiência de percorrer por mar o que caminhámos por terra os últimos 3 dias, é descobrir um novo mundo. Contornamos a orla costeira, rumo a norte ao encontro de grutas vulcânicas, cascatas, razias impecáveis aos ilhéus repletos de fauna voadora que nos lembram um mundo que não é o nosso. Agora, temos a proa apontada para o Corvo e pontualmente uma chapada boa de água do mar na cara. O mar estava agitado, as ondas por vezes tapavam o horizonte. Ao fundo, uma nuvem de gaivotas, já em alto mar, em rituais de acasalamento. Gang Bang de passarada em alto mar é privilégio raro de se ver.

Corvo!



A Gazeta da ilha para amanhã podia dizer: “Malta do trekking apanhado à boleia batoteira até ao Caldeirão” Yup, Shame on us! Mas andar em alcatrão é uma seca e o que nos move é chegar ao coração da ilha, uma montanha vulcânica extinta, quase 4km de perímetro e 300m de profundidade. Quando a cortina de nevoeiro se afasta, o cenário é arrebatador. Mergulhamos no Caldeirão até à lagoa e caminhamos uma volta, contornando o lago. À falta de palavras, deixo as imagens. Incrível!!

Foram quatro horas de puro prazer a calcorrear os trilhos verdejantes, na ilha mais pequena dos Açores.

É de coração cheio que escorregamos até ao Porto da Vila do Corvo, entramos no barco e assumimos 1 hora de spa contemplativo de volta até às Flores.

Obrigado, @extremocidente_carlosmendes


dia seis

das ruínas da Caldeira ao Lajedo, até à Fajã de Lopo Vaz


Choveu boa parte da noite e ainda se sente água a cair com os primeiros raios da manhã.

Montamos tenda num lugarejo encaixado num vale, preenchido por um amontoado de casas em ruínas chamado Caldeira. Os últimos habitantes deixaram a aldeia em meados dos anos 90’ e entretanto esta tem sido engolida pelas plantas invasoras e pelo desgaste do tempo.

O Rui vai deixar-nos, pois hoje voa para o continente. Partilhamos o pequeno-almoço em modo de despedida. É tempo de voltar ao trilho.



Os músculos ainda não tinham aquecido quando passamos a primeira povoação, Mosteiro. Não sei se a chuva assusta a gente, pois não há vivalma na rua. Sinais de um cafezinho, rien de rien. Seguimos.

Passados 500m chama-nos a atenção uma pequena casa, já na encosta em direção ao vale. Primava em detalhes de ruralidade-criativa. Cris apareceu à porta com um sorriso e convidou-nos para entrar. Sempre bebemos um café quente, na companhia de Yaron e Cristina, residentes recentes neste fim do mundo que é a periferia de uma aldeia sem café. Foi uma hora de conversa que acabou em abraços e com a confortável ideia que nos fizemos bem uns aos outros.

A chuva acompanhou-nos o resto da caminhada até ao fim da grande rota, Lajedo. Assumimos a ocupação da junta de freguesia para secar roupa, almoçar, jogar matrecos e aciganar a decoração.

Já passa das 3:30pm quando o autocarro chega. É o nosso transfer para as Lages das Flores, a segunda maior vila da ilha. Segundo os locais, não tem aeroporto como Sta. Cruz, mas o Porto de Abrigo e a Câmara Municipal dão 10 a zero à capital.



Depois de engolir um frango grelhado requentado com batatas processadas e duas Kimas cada um, há energia de sobra para atacar o trilho que nos falta. A PRC4FLO, inserido na Área Protegida para a Gestão de Habitats ou Espécies da Costa Sul e Sudoeste, que nos leva à famosa Fajã de Lopo Vaz. Com uma vista incrível, uma localização de dar cambalhotas para trás, um microclima de colocar a Ericeira num chinelo e os vizinhos com asas mais barulhentos de sempre.

Temos hotel!


dia sete

Fajã de Lopo Vaz a Sta. Cruz, para fechar o círculo


Descobri por experiência que o cagarro acorda bem mais cedo que o galo. Várias vezes fiquei com a ideia que tinha uma ou duas famílias de cagarros dentro da tenda, de tão perto que os ouvia. Tão perto, caraças! Cagarro, cagarro, cagarro, caraças! Quando saí da tenda os sacanas já tinham ido para mar alto. A malta dormia e o céu ainda estava escuro, peguei na câmera e fui à água. Águas. Tratei das duas. Há várias cascatas por aqui, mas a probabilidade de haver vacas a pastar por cima das escarpas é tão grande que não vou arriscar uma revolta intestinal colectiva. Segundo consta, a Fajã de Lopo Vaz tem um microclima tropical, é o local mais quente da ilha com níveis de humidade upa upa! Perfeito para bananeiras, mangais, nhame e uma quantidade considerável de aves endémicas para pintar um clima mais exótico. Creio que estamos sozinhos na Fajã, o que contribui ainda mais para a tranquilidade natural que isto transmite.

O meu joelho continua inchado, mas com 5 min de caminhada a perna aquece e o resto acontece. Tive sorte, não dói com o impacto. Ficará só gravado na retina do Didier um esbardalhanço impecável no trilho mais enlameado de Lopo Vaz.



Hoje a banana dos Açores vai entrar na nossa dieta matinal, como o já conhecido café dos Himalayas e a clássica Cerelac. Para fechar, a Paula tira da cartola o bolo levedo e é aí que o mundo se torna mesmo belo.

O regresso não traz surpresas, pois o trilho é linear. Precisamos de chegar às Lajes e tentar boleia para Sta. Cruz, mas ainda há tempo para morrer de amores pela arquitectura funcional de um grelhador de parque e lambuzar as unhas com um frango requentado.

Diogo, o da PSP, foi o porreiro que nos livrou do asfalto e deixou à porta do camping, em Sta. Cruz. O círculo está fechado, a ilha é nossa.

O que é o jantar?


dia oito, nove e dez e porra!!!

Flores, ilha mãe de todas as tempestades


Sta. Cruz - vendaval descomunal, varetas partidas, penteadora criativos e chuva. Todos os voos foram cancelados e começou a saga dos vouchers de alimentação e a nossa romaria pelos restaurantes: Sereia, Moleiro e Macau. Escolhe tu! Kima, sempre kima para empurrar. Voltinha do patego para fugir à borrasca ao Museu da ilha das flores e a noite de 3 estrela no Hotel Ocidente com meia vista de mar. Damos início a mostras de afecto à vizinha égua que nos conquistou o coração: cenouras!!



nove: Aaaaaahh S. Pedro!!! A chuva caiu feio e o vento passou para lá os 100 km/h. Está visto que ficamos mais um dia em terra. Museu dos Baleeiros e Centro de Interpretação da Natureza pela manhã para apostar no conteúdo e pastar para o hotel durante a tarde. Não creio que haja ninguém em Sta. Cruz que não se tenho cruzado connosco. Almoço: Moleiro. Jantar: Sereia. Santa diversidade!!

dez: Tchau Didier. O tempo melhorou e o sacaninha arranjou lugar no avião da manhã. A nossa oportunidade foi pelo cano quando anunciaram que o avião ficou na Terceira com problemas técnicos. Karma is a bitch. Devia começar a montar uma jangada.

Na falta de melhor sorte, inventámos uma PR para os lados da Reserva Florestal Luís Paulo Camacho. Mais uns kms nos glúteos para merecer o almoço no Sereia (5° vez).

O que é que vai dar no Hollywood hoje?