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Era uma vez, Três pelas Penedas do Gerês

Três dias de caminhada em autonomia pelo incrível Parque Nacional da Peneda-Gerês, no norte de Portugal, com a melhor equipa que podia desejar. O André, a Coi e eu.


dia zero   GANDULA NO ASFALTO

A checklist para esta viagem é mais longa do que o costume: Comida para 3, tenda maior, roupa para todas as estações, 2 frontais, slack-line, bola futebol, Uno, frisbie, hammock, mapas, “O Estranhão” e o incrível almanaque “Lá Fora”, protector 50+++, são tudo um leque de imprescindíveis quando se vai com um puto de 8 anos e um cadela, a Coi. Desafiei o André a estrear-se num trekking em autonomia de três dias em ambiente de montanha. A resposta foi naturalmente um rápido “BORA!!!” Não tarda nada a Gandula, a nossa Sprinter Campervan, vai levar-nos lentamente por 460 km de estradas nacionais até ao Parque Nacional da Peneda-Gerês. Temos tempo.



dia um

SEMPRE A SUBIR!


Havia um entusiasmo que facilmente se confundia com ansiedade pouco habitual. As botas por estrear, a pouca prática com bastões, 3 dias sem banheira e a primeira vez em montanha a sério são bons motivos. O André está pronto! Da Ermida até Borrageiro vão mais de 700 metros em altitude. A jornada começou pela fresquinha, pois estava previsto um sol quente à medida que as horas avançavam. Ainda não tínhamos 3km nas pernas e deparámos com o primeiro obstáculo: a Cascata do Arado, uma das maiores quedas de água do PNPG. Gente em barda, pois a estrada é perto e de carro toda a gente quer ir. Chegaram 3 minutos para dar um check com a vista e retomar o trilho que, passadas 2h de caminhada, sabemos que estamos a chegar à cabana da Teixeira quando sobressaem corpulentos carvalhos no centro do prado. Os cavalos Garrano, espécie nativa do Norte de Portugal, deram-nos as boas vindas. Cinco belos exemplares com um potro habitavam aquele prado. Ahh aquele prado!!! Não só tinha uma relva que apetecia fazer salada, como uns charcos do melhor para tomar banho e deixar passar as horas mais quentes do dia. Banho com todos.

O sol já não ia tão alto quando recomeçamos a andar. O almoço tinha sido consistente e daria energia suficiente para as próximas horas de um trilho empinado até ao destino do dia. O trilho é exigente, muita pedra solta, pouca sombra e tão empinado como umas escadarias de alfama.. O André bufa de cansaço e intensifica os tropeções nas pedras mais salientes, pois as pernas já não estão tão frescas e os pés gritam para estar quieto, no entanto, depois da pausa para hidratar e descansar, pega nos bastões com ganas e retoma o trilho numa de chegar lá a cima. Sempre a subir! Sempre a subir! Poucos metros antes do destino, encontramos uma bica de água fresca. A Coi parece que adivinha que estamos a chegar. Enchemos os cantis e procuramos a difícil tarefa de encontrar 3m2 de chão plano e limpo de pedras, raízes e afins. Pico Borrageiro (1430m) tem provavelmente a vista mais desafogada da região, oferece uma boa cama para a nossa tenda e um final de dia difícil de esquecer.

O jantar está na rocha!


dia dois

ROCALVA, VACAS E O POÇO AZUL


Para não variar, o André acorda antes de mim. Saiu da tenda com a minha máquina fotográfica e foi-se libertar, tanto a nível fisiológico como criativo. O pequeno almoço foi farto de cereais e frutos secos de modo a acumular energia para o dia que aí vinha. Estávamos a pouco mais de 1h do grande rochedo da Meda de Rocalva. O nome vem da sua forma característica semelhante a uma meda de palha. No Curral de Rocalva encontramos uma cabana e o antigo forno de abrigo dos pastores e claro, as vacas do costume. Vacas livres. O André hoje está mais confiante. Os bastões já não o atrapalham, os pés já se moldaram às botas e parece recuperado da coça do dia anterior.


A Coi vai sempre à frente, mas já não comete o erro juvenil de fazer piscinas à bruta, pois já sabe que o dia vai ser longo. O trilho é malandro e facilmente deixa-mo-nos levar pelo caminho mais lógico que por vezes não é o mais fácil. Há séculos que os pastores caminham por estes vales, no entanto a escassa existência de mariolas e o trilho pouco pisado, não ajuda no processo “where is the f#*?ing track”, o que nos obriga a consultar o gps. Há horas que vamos a descer e a contornar rochas de granito até chegarmos ao ponto alto do dia, o Poço Azul. Um pequeno oásis de água azul cristalina que o rio Conho resolveu reter, encaixado entre rochas que, não fosse o enquadramento de montanha, faltaria pouco para pensar nas Maldivas. No entanto, estamos no Gerês e, eventualmente como nas ilhas do Índico, temos que nos abstrair de uns franceses barulhentos e mandar umas chapas de bem alto para apagar do corpo o suor de dois dias.

Sai bomba!!

dia três

CASCATAS, CASTANHEIROS E MERGULHOS


A manhã acordou mais fria que as outras e não estava fácil tirar a farpela de penas de ganso sintético* que a Quechua impinge a preços baixos, que garante a existência de alguém do outro lado do mundo a ser explorado. Enquanto se preparava a refeição da manhã o sol lá ia apagando os sinais da cacimba e, com uma eficácia espetacular, secou a tenda em minutos. Nada como a amplitude térmica da montanha para acordar os ossos. Por cima da tenda erguiam-se os ramos de um carvalho secular que nos serviu de abrigo durante a noite e uma sombra conveniente para agora. O troféu do dia de hoje chama-se Cascata do Ribeiro da Dola, e tudo o que mete cascatas é música para os ouvidos do André e mel para o pêlo da Coi. No entanto ainda temos 7 km a descer bem, do que nos separam desse paraíso de águas correntes. Não demorou muito para nos cruzarmos com cavalos garranos e mais vacas de belos cornos. A Coi já não reage aos animais como se lhes fosse comer os calcanhares. Já se tornou rotina a convivência com estes seres que fazem 20 dela e parece que já se nota tolerância na coexistência. O André está pro com os bastões e, mesmo cansado já se habituou que se não levanta os pés cansa-se mais, vai mais devagar e tem que fazer mais esforço. Logo, levanta-os como um herói, mas como o dia já vai avançado, deixa escorregar uns gemidos-queixume de que ficaria feliz se isto acabasse rápido.


De que o que sabia mesmo bem agora era um Magnum Amêndoa, uma cascata de azuis turquesa seguido de um dolce far népias. Aahhhh e uma Sagres!!! — pensava eu. Daqui até à nossa Gandula é um tirinho e em menos de 30 minutos descemos um trilho cabreiro bastante acidentado com a juventude de quem estava a começar. Sirvozelo foi a terra eleita que, para tal, o único critério era o gelado da Olá. Está feito!! A primeira aventura de trekking em autonomia na montanha do André, sentado numa cadeira de esplanada, com as beiças forradas a chocolate e com uma cara que, daqui, parece feliz.