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Aproximação às Beiras

De Sarnadas ao Fundão é uma variante muito pessoal pelas Aldeias do Xisto com as Aldeias Históricas, de bicicleta por estradas regionais.



Depois da incrível jornada do Circuito dos Annapurnas não há viagem de bicicleta em que não me ocorra como é bom rolar com dois pedais.

Sarnadas é o pontapé de saída. São 7:30am e os acolhedores -2°C põe um Lifting num canto no que toca a estica peles. No entanto, a paisagem está coberta de geada. É magia pela fresquinha!

Como não podia deixar de ser, esqueci-me de coisas... desta vez foram o raio das luvas e, como o corpo está pouco preparado dos 5°C para baixo, lá vou eu a intercalar as mãos, ora no guiador, ora no bolso das calças, para evitar o roxo dormente. Não trazer luvas numa viagem de bike no inverno é como caminhar de chinelos na montanha. Também dá, mas é parvo e dói muito.

A cacimba da manhã deu espaço ao sol e recuperei a cor das mãos. A descida bruta foi ao encontro do rio Ponsul e foi aqui que dei de caras com a Lentilha da Água (Azolla filiculoides). O cenário é incrível e exótico, impossível de ficar indiferente, no entanto é planta invasora, impulsionado pela poluição provocada pelos adubos agrícolas, contribuindo ainda mais para a degradação da qualidade de água (obrigado @bernardonconde pelo apoio técnico). Enfim, as merdas do ser humano, para não variar...

Segui o asfalto regional até ao Ladoeiro, terra dos sonhos, segundo reza a Freguesia (cada um com a sua panca...). Andor!

Com o caminho por minha conta, sol na pinha e uma brisa a favor, chego tranquilo à Albufeira da Idanha. Com tempo, encontro spot para dormir e, pouco antes de anoitecer apareceu uma raposa para dizer olá.

A noite de inverno já se faz sentir na cara e como a previsão mete chuva e vento, procuro um local abrigado e siga para dentro.

Com sorte, ainda tenho uns javalis a fungar na tenda durante a noite. Amanhã é lua cheia. Hoje, tenho sono.



Choveu à brava a noite toda, mas como o vento teve fraco, foi boa música para um sono tranquilo. Já de dia, o sol aparece lá fora e a passarada grita alvorada! Hoje dei uma hora extra à ronha para me poupar do frio-cacimba-do-caraças-gela-mãos-de-parvo-que-se-esqueceu-das-luvas. Comi os restos de pão de massa mãe que me sobrou do jantar, o que deve chegar de energia para me mandar para Monsanto, a aldeia mais portuguesa de Portugal, dizem os tipos que querem arranjar stress com a malta de aldeias medianamente portuguesas. O que é certo é que, pouco mais de uma hora, 13km e 758m depois, tinha trepado o cabeço de Monsanto e pronto para o segundo pequeno-almoço: uma tostazorra de bacalhau com azeitonas e cidra caseira para empurrar, que à partida dá fuel para umas horas.

Apanho uma descida acentuada de calçada medieval onde temi por mais que uma vez ficar sem queixadas, mas a sorte estava do meu lado e deu para curtir. São caminhos bonitos, murados de granito e, com sorte, há vacas, cabras e galinhas várias do lado de lá. Passado uns kms tive a sorte de me cruzar com um corço distraído a atravessar a estrada, perto de um montado de sobreiros. Depois de Martianas acabou-se a mama do sol e começa a chover. Tinha que vir o microclima do Fundão... Os últimos 30km deram-me um tónico chuveiro no focinho com apontamentos longos de intenso vento contra.

Pouco antes de mergulhar na entediante malha urbana do Fundão, cruzo-me com um condomínio incrível de cegonhas brancas, na quinta das Nogueiras. A cereja em cima do bolo veio com a noite a aparecer com o céu dramático a avisar que a chuva está para ficar.