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À volta dos Annapurnas

Dez dias de bicicleta à volta de dez incríveis massas da natureza. 

Manaslu • 8156m Thulagi Chuli • 7059m Annapurna South • 7219m Tilicho Peak • 7134m Annapurna II • 7937m Annapurna IV • 7525m Annapurna III • 7555m Gangapu


“It’s not the mountain we conquer, but ourselves.”     —  Sir Edmund Hillary


dia um | Kathmandu > Besishahar > Bhulbhule

bus : 247km | bike: 16km

Com poucas horas de sono na tola e a ansiedade tonta de quando iniciamos mais uma aventura deu-me para sair do hotel a rolar em cima da bike. Estava mortinho para me por à estrada! Já sabia que ia levar uma tareia de oito horas de autocarro de Kathmandu até Besi Shahar, umas das portas de entrada do circuito. Ainda estou a digerir emoções da viagem anterior — quase conflito com o entusiasmo da que está prestes a começar. Acho que fui atacado pelo síndrome de Erasmus da montanha. Estou sozinho a fazer exactamente aquilo que quero, no entanto sinto falta deles todos. Adaptando uma das tiradas dos Bons Selvagens, foram duas semanas com a vertigem de dois dias e a intensidade de dois meses. Tratei dos permits (ACAP, TIMS) num repam, reabasteci a água filtrada e Nebico Coconut Crunchees, as bolachas dos campeões! Começou a chover e lá foi a minha mente, ainda de braço dado com a nostalgia, sentir falta da Paulinha Bonanza. São 16km para aquecer as pernas, contornar poças, gincana com jipes, motas e lama em barda. Passo por várias hidroelétricas controladas pela China (onde é que eu já vi isto?), camponeses a voltar para suas casas e segue o lusco-fusco.


As montanhas altas aceleram a escuridão, mas numa rara aberta no céu, kapaw!! Himalchuli (7893m) imponente à frente dos olhos com dourados Instagram. Lindo na foto, melhor na cabeça. Os últimos kms foram de frontal na testa e uma impressão amarga de que o pedal esquerdo não estava nas melhores condições. Riverside Guesthouse pareceu-me bem para fazer de toca e amanhã é outro dia. Um veg cheese momos deu para acalmar a lontra que vive em mim e fui-me deitar à patrão com a babe Nordest.



dia dois | Bhulbhule (840m) > Syange (1120m) 

23km | 1155m D+

Foram só 15km para perceber que o pedal não ia aguentar... 15km!!!! Paro imediatamente para avaliar o estrago e aquilo abana por todo o lado. E agora??? Tenho 10 dias pela frente para rolar mais de 200km por um dos mais míticos trilhos do planeta e fico empanado aos 15km??? Fiquei uns 15 minutos parado a arranjar explicação para aquilo é a mais viável seria a minha negligência-impaciência-falta-de-jeitinho-natural a montar a bike. 15km, foda-se... Mais 15 minutos para ter pena de mim e... Plano B, voltar para Besishahar para tentar soldar esta gaita. É a única solução possível nesta zona onde já não há nada a não ser guesthouses, botecos de street food, uma farmácia, o check point da ACA e um serralheiro. É o que há, 15km para trás. Perdi 4 horas, 1000 rupiahs e não ganhei um pedal novo. Recomecei com o coração nas mãos. Qualquer barulho que viesse dali ao pé dos pés era uma tortura. Ainda para mais, já tinha feito estes 15km, só pensava que sentido faz começar está viagem assim. Coxo!! Há uns anos segui um tipo que deu a volta ao mundo de monociclo. À primeira ocorreu-me ser apanhado da cuca, mas mereceu o meu respeito de imediato. Anos depois segui o Alastair Humphreys e o Leon McCarron numa jornada “Into The Empty Quarter” com uma espécie de charrua feita numa garagem e redefini o meu conceito de apanhado da cuca. Posto isto, predispus-me a ser o primeiro gajo a fazer o Thorung La (5416m) a monopedal. Ri-me sozinho e devagarinho comecei a descontrair. A partir de agora, nas subidas levo a bike à mão (para poupar o resto de pedal moribundo) e nas descidas monto a Britango e experimento penteados ao sabor do vento. Acabei o dia com pouco mais de 24km a acumular aos 15km que andei para trás. Em Syange, uma pequena vila Gurung, encostei à box, engoli um egg veg noddle soup para empurrar o Tibetan bread, xixi, cama! Syange tem uma cascata monumental bem perto e o barulho da água a cair é brutal. Dormi como um calhau.

 


dia três | Syange (1120m) > Koto (2640m)

41km | 2210mD+

Hoje é dia de subir a parada! No sentido literal são 1500m upa upa muito mal disfarçados em 42km. Vou fazer dois em um como um champô. Perdi um dia de viagem com o sacana do pedal e essa folga vai dar jeito mais tarde. O trilho segue o rio Marsyangdi, sobe, sobe, sobe como se não houvesse amanhã até Dharapani, onde há o primeiro check point da ACAP que aparentemente coincide com o Manaslu Circuit. O mais curioso de Dharapani é ter sido uma hub comercial com o Tibete. O sal era o produto tchan, mas os chineses fecharam as fronteiras em 1959 e passou tudo a menu dieta outra vez. Como a dieta não me assiste, carrega Dal Bhat Power 24h!! Pela frente esperam-me florestas de pinheiros e abetos dispersas por um terreno a pique e, se o S. Pedro tiver na boa, espera-me o imponente Annapurna II (7937m). Estou a entrar no coração dos Himalayas. Antes de chegar a Koto compro maçã desidratada de uns locais e sem dar por ela, brinco ao balão com uma miudinha Gurung. Deu-me um chilique de nostalgia paternal e segui caminho com a vitamina no bolso. A lama que havia no trilho secou e transforma-se em pó e, como os camaleões do Algarve, é dessa cor que acabamos o dia. A Britango monopedal e eu.

 

dia quatro | Koto (2600m) > Bhraka (3450m)

31km | 1450mD+

Despeço-me de Koto numa roda de oração. O dia está fresco e perfeito para rolar em monopedal, partilhar a estrada com jipes, motas, tratores da 2° guerra, mulas, camponeses vários e pó até à quinta casa, sempre acompanhados pelo rio Marsyangdi. Pouco depois de passar Bhratang, uma pequena vila cheia de histórias onde entram Rebeldes Khampa apoiados secretamente pela CIA contra o Exército de Libertação Popular de Mao Tse Tung, o vale estreita onde o rochedo de Paungda Danda se eleva mais de 1500m acima do trilho. Uma potência imensa em termos de calhau. Com tanta cultura, terra batida e pontes Himalayas vem a fome de proteína, resolvida de imediato com Yak Meat Curry, em Pisang. O destino de hoje é Bhraka, uma vila pacata antes da movimentada Chame, carregadinha de trekkers e de guesthouses com café Lavazza e Western-cenas para se sentirem como se não tivessem saído do bairro (?). Chego a boa hora para um estica pernas em Bhraka, fazer a manutenção à brava Britango e despachar um Massala Tea de Campeões enquanto espero pelo Dal Bhat. Dhanyabad!

 

dia cinco | Bhraka (3450m) > Kicho Tall (4627m) > Gunsang (3990m)

trekking: 11,4km | 1320mD+ bike: 18km | 670mD+

Aclimatação é o palavrão que me fez levantar o pandim da cama pela fresquinha, deixar a Britango na ronha e trepar mais de 1000m em altimetria. Kicho Tal (Ice Lake) era a cenoura. Quando cheguei lá em cima o Ice Lake era mais lago que Ice e não fui abençoado com uma bela vista panorâmica de Annapurna III, Gangapurna e Singhu Chuli, porque nevava em paletes e o vento cortava-me a cara às fatias. No entanto, a paisagem dramática da montanha transmite uma paz incrível. Que bem se está no campo! A descida foi à sapa, pois deu-me um ratito no estômago e as pontas dos dedos estavam a ganhar um tom azul-frio-que-dói. A intempérie fez uma pausa e chamou a fauna para uma festa: Blue Sheep (Pseudois nayaur), Grifo dos Himalayas (Gyps himalayensis) e uma perdizes que se assustavam com a minha passagem. Depois do Dal Bhat despeço-me de Bhraka em direcção a Manang, vila super-friendly para turista ocidental que gosta de coisas ocidentais em sítios onde não deviam existir coisas ocidentais. Olá Manang, adeus Manang. No final do dia, já com o arraial montado em Gunsang, avistei um lobo solitário a rondar a vila à procura de uma galinha distraída. Foi um dia de farta em animal selvagem. Para acabar em grande sou desencaminhado pelo host da guesthouse para uma voltinha estratégica até uma casa de Adobe, lavar as mágoas da alma com o intragável Nepali Local wine, Rakshi. Depois da primeira experiência num tasco a 4000m e aquele sabor esquisito a coisa estragada, dormi como um anjinho com banho por tomar.

 

dia seis | Gunsang (3990m) > Phedi (4540m)

bike: 13km | 640mD+ trekking: 3,8km | 390mD+ 390mD-

Era uma vez um português, um americano, um francês e um espanhol. O Ryan rola desde Agosto a partir de Hanoi (Índia) pelas estradas perdidas até ao Nepal. O Pierre deixou-se arrastar pela até ao Nepal através de Sikkim (Índia). O Cristian saiu de casa, em Cadiz, despachou a Europa em 3 meses e já rola à 5 pela Ásia. Quis o destino que nos cruzássemos para lá de Manang a caminho de Thorung. Foi um dia curto em distância, mas a altimetria apertava e foram poucos os kms que a bike sentiu as nalgas no selim. Poupa-me o pedal e empurra, campeão!! Para dar mais salero a esta etapa, chamamos o Gangapurna. Este menino mede 7.455 metros, está empoleirado no alto vale de Manang, acima do vale varrido pelo vento de Manang e em direção ao extremo norte da cordilheira de Annapurna, uma das montanhas menos escaladas dos Himalayas. Seguem-se algumas pontes suspensas no trilho, as subidas empinam sem dó e o ar acima dos 4000m torna tudo bistarie bistarie. É um lufa-lufa a acartar a bela monopedal Britango. A secção até Thorung Phedi tem uma paisagem surreal. O vale é estreito, as encostas íngremes com muitos tons diferentes de laranjas, amarelos e castanhos, a avisar a chegada do outono. Paro a cada 20 metros de subida, não por exaustão, mas porque a vista é linda, óbvio. Um rebanho de iaques atravessa-se à minha frente, mais uma paragem contemplativa. Ai, olha ali o Annapurna III, está lá quieto mais um pouco. Chegamos a Thorung Phedi com tempo para lagartar ao sol em cama de rede e dar um check ao que nos espera amanhã: a tareia do ano!! O cenário é difícil de explicar por palavras, mas por imagem podem ver aqui @vadiagemoutdoors Que privilégio!

 

dia sete | Phedi (4540m) > Thorong La Pass (5415m) > Ranipauwa (3900m)

17km | 1350mD+ | 1870mD-

O plano tinha sido traçado na noite anterior, entre uma garlic noddle soup — que faz bem que se farta à circulação do sangue em altitude (ajuda a reduzir o risco de AMS) — e um Gurung Bread que só serve para empanturrar. Acordar às 6am, engolir a oat porridge mais inflacionada da viagem e atravessar aquilo que muitos dizem ser a passagem mais alta do mundo, Thorong La Pass. Como em quase tudo, há várias linhas de pensamento. Dungri La Pass (5608m), na Índia, também reclama o caneco. Adiante. Despedimo-nos do Ryan e do Pierre, que iam ficar a pastar/aclimatar/far niente mais um dia pelo High Camp. O Cristian alinhou comigo no meu desporto de eleição desde o km 15: caminhar com uma bicicleta monopedal ao lado, que apelidei como TREKKLING, para dar alguma pausa. Resultado: das mais majestosas tareias que apanhei na vida. Acima dos 5000m havia uma paragem de dois em dois minutos. O terreno difícil e empinado, a bike começou a pesar duas toneladas, o ar deixou de ser à la gardere. As pausas ajudavam a respirar, no entanto as vistas são de cortar a respiração. Enfim, foi complexo... Thorong La Pass (5415m) Fo-da-se, é aqui!!! Fiquei feliz, demos um abraço sentido e deitei-me ao sol. Queria curtir a cena bem, mas antes tinha que resolver a dor de mona que me picava o cerebelo. Adormeci uns 3 minutos e, como se tivessem carregado num botão, ligaram o vento no máximo. Finalmente o selim reencontrou o pandim! Foram 12km de gincana numa descida bruta com mais de 1600m de desnível, ao encontro do maravilhoso mundo novo do Vale do Mustang. Só me apetece dizer asneiras.

 

dia oito | Muktinath (3900m) > Marpha (2680m)

34km | 1200mD-

Terra da Sombra, é como chamam Mustang. Um dos locais mais mágicos por onde passei na vida. Fomos dar um giro ao Mosteiro de Muktinath pela fresquinha. É um dos locais de peregrinação mais importantes para os vaishnavas hindus e os budistas tibetanos. Desde os banhos na água sagrada, o Dholamebar Gompa e o fogo eterno, as impressionantes 108 torneiras que, segundo a tradição, fazem um reset nos pecados e más opções desta vida. Se não tivesse aquele calorzinho da Sibéria, teria dado o meu mergulho para fins preventivos. Estamos prontos para descer, descer, descer, como se não houvesse amanhã. É um vale encaixado no rio Kali Gandaki, com planícies seculares varridas pelos ventos impiedosos de Mustang. As casas de barro acumulam madeira nos telhados — sinal de riqueza, diz-se. Mustang já foi um fundo do mar tal como todos os picos dos Himalayas. Depois houve a colisão de placas tectónicas da Euroásia com as indo-australianas que, em 70 milhões de anos, provocou este lindo serviço que são os Himalayas. Daí ser possível encontrar fósseis de amonita com motivos marítimos que ficariam a matar numa casa de praia. As bandeiras de oração tibetanas contrastam com o gelo de Dhaulagiri em pano de fundo, a 7ª montanha mais alta do mundo. Quase que dá para tocar.

 

dia nove | Marpha (2680m) > Tatopani

46km | 1520mD-

Nos anos 60 foi estabelecida uma fazenda de horticultura na aldeia e levou as famílias locais na produção de maçãs. Marpha agora é conhecida pelas Apple pies, cidra, maçã desidratada, maçã a fazer o pino e muito mais. Todas as que comi levam dez a zero das nossas. Foi um martírio comer aquilo. No entanto, Marpha tem melhores qualidades. O mosteiro tibetano dá-nos uma vista da aldeia incrível, mas não esperamos pela cerimónia de oração. Espera-nos um dia longo com descidas intermináveis no deserto de Mustang até mergulhar na densa floresta do vale de Kali Gandaki, o desfiladeiro mais profundo do mundo.


Partilhamos sem grande entusiasmo uma estrada impecavelmente esburacada, apinhada de calhau solto, jipes, rebanhos de ovelha, yaks, autocarros ruidosos e motas em barda. O piso seco não ajuda e em menos de um fósforo deixa-nos com uma patine empoeirada na epiderme que acumula carinhosamente com camadas dos dias anteriores. O termo técnico é sarro, mas não me ocorre o nome em latim. As localidades passaram a ser vilas e não aldeias, o transporte agora vê-se a motor e não de mula, tudo parece mais desolador e decadente. Está a perder-se a magia do meio rural onde as coisas passam mais devagar. Vários kilos de poeira depois, chegamos a Tatopani, onde espera por nós a recompensa do dia. Hot springs!!


Está longe de ser uma extravagânciapara os olhos, mas fez os sentidos irem à lua. 2 horas de luxo até virar uva-passa. Seguimos a estratégia do costume na escolha da guesthouse: alojamento grátis na condição de ficar para jantar. O Dal Bhat está na mesa!

 

dia dez | Tatopani (1220m) > Beni (899m) > Pokhara

bike: 28km | 690mD- bus: 89km

10 dias 310,4 Km 5416m upa upa! 21470m D+ 19823m D- 1 pedal 0 pneus furados 12014 Namastés 🙏 Este é o meu Annapurna Circuit em números. E é provavelmente o que menos interessa. Por estes dias tive o privilégio de mono-pedalar em cima da incrível e fiável amante Britango, na sombra dos picos mais altos do planeta Terra. Apesar do corpo dorido, dores de cabeça nas alturas, das nuvens de poeira, das loucas gincanas com jipes e motoretas, falta de banhos (como se fosse um problema), das saudades do meu puto, os incontáveis kms a empurrar a bike, foi com uma alegria avassaladora que todo o santo dia caía com estrondo na cama, com a certeza que estava no lugar certo. O dia seguinte iria acordar com a energia bruta da oak porridge milk with-a-fruta-que-houver, dois ovos cozidos para a viagem e o entusiasmo quase infantil como se fosse o primeiro. Os gigantes brancos estão todos lá fora à espera para fazer companhia. Os Nepali, putos e adultos, com uma curiosidade genuína, aproximam-se.


Querem uma foto contigo, por vezes só com a bike. Fazem perguntas e, mais do que tudo, com poucos gestos e ainda menos palavras, sabem sentir-te bem vindo. Dhanyabad, gente boa! (Excepto o cabrão que me levou o frontal, em Ghusang. Tinha duas semanas e custou-me os olhos da cara...) Estou no coração dos Himalayas foda-se!!! À noite nas margens do Fewa em Pokhara, em forma de celebração, queimei as fichas todas com street-food-amanhã-tens-a-tripa-feita-num-caco, pedi uma Tumba de millet e celebrei à campeão com a “Once in a Lifetime” do mestre David Byrne.

Está na hora de voltar.